Proctalgia Fugaz

Proctalgia fugaz é uma doença anorretal funcional cujo principal sintoma é a dor anal ou retal profunda, que pode ser muito intensa, semelhante a uma câimbra (contração muscular involuntária dos músculos do assoalho pélvico). Proctalgia significa literalmente “dor no ânus” e fugaz indica que a dor é rápida, durando geralmente alguns minutos (menos de 20 minutos).

A dor pode surgir a qualquer hora do dia, mas é mais frequente à noite, muitas vezes acordando o paciente durante a madrugada. Pode ser muito intensa, lancinante, sem irradiação ou relação com as evacuações durando geralmente menos de 20 minutos.  Atinge 5 a 10% da população e envolve preferencialmente o sexo feminino, entre os 40-50 anos. De um modo geral, é sub-diagnosticada e desvalorizada na avaliação clínica dos doentes portadores de queixas anorretais.

 Anatomia1  Anatomia2

O que provoca a dor são os espasmos violentos dos músculos elevadores do ânus, assim como acontece nas câimbras.

Alguns pacientes sentem uma vontade urgente de evacuar durante ou logo após os espasmos, embora não consigam e mesmo quando evacuam a dor não melhora.

Os sintomas geralmente são recorrentes e não têm cura conhecida, mas podem ser controlados com medicação. As crises dolorosas são raras, ocorrendo menos de 5 vezes por ano em cerca de metade dos pacientes, em algumas pessoas uma vez por meses e em poucos casos ocorrem duas ou três vezes por mês.

É importante lembrar que algumas doenças graves podem causar os mesmos sintomas da proctalgia fugaz, entre elas câncer de intestino e tumores da coluna.

Por isso, em caso de dor anal tipo câimbra, consulte um médico proctologista para uma correta avaliação.

Etiopatogenia – causas da proctalgia fugaz

Não se sabe a causa da proctalgia fugaz, mas trata-se de uma condição benigna que afeta mais as mulheres. O início dos sintomas ocorre geralmente na idade adulta, entre os 40-50 anos.

A natureza esporádica e fugaz dessa doença tem limitado os esforços para estudar o seu mecanismo fisiopatológico, não havendo atualmente certezas sobre o mecanismo que desencadeia a dor.

O papel dos fatores psicológicos ainda não está bem estabelecido, mas os pacientes que procuram cuidados médicos para a proctalgia fugaz parecem apresentar certos traços de personalidade que podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno. Dois estudos não controlados que utilizaram testes psiquiátricos e de personalidade encontraram nesses pacientes alterações psicossociais como: perfeccionismo, ansiedade, tensão, hipocondria e neurose.

Causas que favorecem o aparecimento da proctalgia fugaz

Excesso de stress ou fatiga;
Micro traumatismos repetidos (viagens longas, prática intensa da bicicleta, moto e equitação);
Problemas posturais da coluna lombar ou sacral;
Problemas vasculares do reto.

Diagnóstico da proctalgia fugaz

O diagnóstico de proctalgia fugaz é baseado em critérios clínicos e na ausência de doenças anorretais que podem causar dor anal ou retal (por exemplo, doença inflamatória intestinal, fissura anal, hemorroidas, abscessos, etc.)

Não existem conclusões específicas ou definitivas sobre um exame físico ou testes laboratoriais que suportem inteiramente o diagnóstico. Desde 2006 são aceitas as propostas de critérios de diagnóstico (Roma III) que implicam o seguimento das seguintes características:

  • Episódios recorrentes de dor localizada no ânus ou reto inferior.
  • Episódios podem durar de segundos a minutos.
  • Ausência de dor retal entre os episódios.

O diagnóstico baseia-se então, na verificação dessas características e na exclusão da proctalgia crônica característica da síndrome do elevador do ânus. Os critérios de Roma III definiram a proctalgia fugaz como um transtorno separado da proctalgia crônica, síndrome do elevador do ânus. Pacientes com proctalgias crônicas descrevem tipicamente uma dor vaga, tipo moedouro (desconforto contínuo), uma sensação de pressão ou uma bola no reto. A dor pode ser induzida no toque retal ao palpar o músculo puborretal, principalmente no lado esquerdo.

Deste modo os critérios diagnósticos para a proctalgia crônica incluem: dor crônica ou recorrente ou dor retal com episódios de pelo menos 20 minutos, excluindo outras causas de dor retal, tais como isquemia, doença inflamatória intestinal, criptites, abcessos, fissuras, hemorroidas, prostatite e coccigodinia. Estes critérios devem ser observados nos últimos três meses, com início dos sintomas, pelo menos, seis meses antes do diagnóstico.

Como auxílio para o diagnóstico diferencial com outras entidades que cursam com dor anal, são apresentadas no Quadro I as causas mais frequentes de dor anal e suas respectivas características clínicas. As mesmas devem merecer a melhor atenção pois as suas etiologias variam desde situações triviais até doenças inflamatórias intestinais, neoplasias ou infecções, impondo uma correta observação e diagnóstico.

Diagnóstico Diferencial

O Exame Proctológico, exame da região anorretal, geralmente não apresenta qualquer alteração.

Para pacientes com alteração do hábito intestinal, idade >50 anos, sintomas atípicos ou sinais de alarme (perda de peso, muco e sangue nas fezes) há necessidade de colonoscopia para descartar doenças colorretais (câncer de intestino, diverticulose, colites, etc). Tumores da coluna (cauda equina) podem mimetizar os sintomas da proctalgia fugaz.

Para o diagnóstico diferencial é necessário considerar e pesquisar outras patologias, tais como: distúrbios do assoalho pélvico e neuropatia do nervo pudendo. Para isto pode ser necessário a avaliação do assoalho pélvico com exames como: ultrassom endoanal, manometria anorretal, defecografia, entre outros.

Quadro I Características da dor e respectiva hipótese diagnóstica.

Características da dor Hipótese diagnóstica mais provável
Dor recente aguda e persistente nas primeiras 24 a 48 horas seguida de melhora lenta.
 Trombose hemorroidária / proctite
Dor recente aguda de intensidade crescente, agravada pela evacuação ou posição sentada  Abcesso perianal
Dor aguda de curta duração causada ou agravada pela evacuação.  Fissura anal
Dor aguda, súbita e fugaz  Proctalgia fugaz
Dor surda, tipo pressão, periódica agravada pela posição sentada de evolução arrastada  Neuralgia anal essencial /síndrome do elevador do ânus
Dor surda, insidiosa, que altera com a posição e de localização coccígea e anal com história traumática  Coccigodinia essencial
Dor tipo moedouro, ou peso retal, imprecisa, variável que agravava com ingestão de alimentos condimentados  Doença hemorroidária
Dor espasmódica, persistente, recente e insidiosa  Corpos estranhos (inseridos ou deglutidos)

 Tratamento da proctalgia fugaz

Antes de qualquer proposta de tratamento deve-se esclarecer o paciente sobre as características particulares da proctalgia fugaz, é aceitável que para a maioria dos pacientes com episódios sintomáticos breves e infrequentes não haja necessidade de qualquer tratamento específico. Para a pequena percentagem de pacientes com sintomas mais frequentes e subjetivamente preocupantes deve-se propor algum tratamento mais específico.

1- Regularizar o hábito intestinal para evitar o esforço evacuatório. 《➤BAIXE A DIETA》  

2- Banhos de assento em água morna, principalmente antes de dormir. 《➤BAIXE A RECEITA》  

3- A fisioterapia com biofeedback para ensinar a(o) paciente a contrair e relaxar a musculatura do ânus pode trazer bons resultados.

a- Preparo do Biofeedback (1 frasco de enema e 2 comprimidos de bisacodil 5 mg) deverá ter sido adquirido na marcação do exame.
 No dia anterior ao exame, tomar 2 comprimidos de bisacodil 5 mg às 20 h.
 No dia do exame, deve-se aplicar um enema via retal 2 a 3 h antes do exame, para que não haja fezes no reto durante o exame.
 Não há necessidade de jejum. 
Evite realizar durante o período menstrual. Não causa dor e não é necessária sedação.

b- O exame começa com o paciente deitado sobre o lado esquerdo (decúbito lateral esquerdo), colocando-se uma sonda plástica flexível fina através do ânus, lubrificada para que não haja desconforto. O paciente é então orientado a realizar movimentos repetidos de contração e relaxamento da musculatura anal, guiado pelo gráfico com a medida das pressões que aparece numa tela de computador, para que ele consiga perceber se está fazendo o movimento da forma correta. A sonda é delicadamente introduzida até 6 cm da borda anal e retirada de forma gradativa para se medir o comprimento do canal anal. Então, o paciente é solicitado a fazer movimentos de contração voluntária da musculatura anal e movimentos que simulam o esforço de evacuar e as pressões são registradas. Por fim, enche-se gradativamente o balão com ar até que o paciente apresente a sensação de vontade de evacuar (sensibilidade retal). Continua-se a encher o balão até que o paciente apresente desejo imediato de evacuar (capacidade retal máxima). Por fim, o balão é esvaziado e a sonda retirada. O exame não causa dor e não é necessária sedação.

c- O método é indolor e bem tolerado, sendo realizado em média ao longo de 04 a 08 sessões semanais com cerca de 20 minutos cada.


Almofada

4- O uso da almofada gel para os pacientes que ficam por longo período sentado pode ajudar.

 


5- Miorrelaxantes musculares.

a- Carisoprodol a cada 12 horas ou 8 horas. Normalmente associado ao paracetamol, à cafeína ou ao diclofenaco, é um relaxante muscular de ação central com efeito ansiolítico. 

b- Ciclobenzaprina (5 mg e 10 mg a cada 12 horas ou 6 horas). É um miorrelaxante de ação central. Apresenta efeito de relaxamento muscular e sedativo e é utilizada para abaixar os níveis de dor, melhorar a rigidez, o sono e reduzir o nível de pontos dolorosos. 


Massagem

6- Massagem anal esfincteriana pode ser tentada, mas seu benefício não é claro.

 

 

 


7- Em alguns casos, a psicoterapia terá um papel importante para diminuir a tensão e a ansiedade.

Esses tratamentos costumam ter bons resultados, principalmente após o paciente descobrir que a sua dor anal (proctalgia) não decorre de uma doença grave.

8- Outros tratamentos disponíveis

a- Salbutamol por via inalatória (100 mcg/dose). Há poucos trabalhos científicos para orientar esse tratamento. O único estudo controlado incluiu apenas 18 pacientes aleatoriamente agrupados para o uso do salbutamol por via inalatória (100 mcg/dose) versus placebo. O salbutamol reduz significativamente o tempo de duração da dor aguda e intensa, principalmente nos pacientes com episódios mais frequentes e cuja dor seja prolongada. 

b- Bloqueio dos nervos pudendos pode levar um alívio em cerca de metade dos pacientes.

c- Outras possíveis opções de tratamento que têm sido sugeridas em relatos de casos incluem desde a utilização da clonidina, a aplicação tópica de nitroglicerina, ou ainda, a injeção de toxina botulínica que revelou efeitos promissores sem implicações num hipotético comprometimento da continência esfincteriana anal.

Não há relação entre uma almofada com eletricidade estática, que está sendo veiculada na internet, e a melhora da dor da proctalgia fugaz, porque o campo elétrico pequeno debaixo de um colchão não irá interferir na musculatura do ânus. Por isso, é importante ressaltar a necessidade de buscar um médico proctologista para tratar a proctalgia fugaz.

Isenção de responsabilidade

As informações contidas neste artigo são apenas para fins educacionais e não devem ser usadas para diagnóstico ou para orientar o tratamento sem o parecer de um profissional de saúde. Qualquer leitor que está preocupado com sua saúde deve entrar em contato com um médico para aconselhamento.

 

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