Radiofrequência na Incontinência Fecal

Tratamento transmucoso não invasivo da incontinência fecal com a Radiofrequência

Incontinência fecal é a incapacidade de controlar a eliminação, pelo ânus, de gases ou fezes de consistência líquida, pastosa ou sólida em qualquer momento da vida após a aprendizagem do uso do banheiro, nas últimas 4 semanas. Varia desde pequenas perdas de gás ou líquido até perda de grande quantidade de fezes formadas. Independentemente do volume perdido, o paciente pode sentir-se bastante constrangido e inseguro, o que transforma de maneira substancial sua confiança e comportamento social.

A incontinência fecal tem um efeito deletério significativo na qualidade de vida. A continência fecal depende de uma interação complexa da função do esfíncter anal, função do assoalho pélvico, tempo de trânsito das fezes, capacidade e sensação retal.

Prevalência da incontinência fecal

A prevalência é variável e pode ser bem maior que a descrita na literatura. O problema é sub relatado porque os pacientes ficam relutantes em mencionar esta condição aos profissionais de saúde, tanto pelo constrangimento quanto pelo desconhecimento dos tratamentos.

É uma afecção que atinge de 1 a 7.4% da população geral, segundo mostram os estudos. Sua incidência em pacientes geriátricos hospitalizados varia de 10 a 25%, e chega a 35% nos pacientes institucionalizados. Nos EUA é a 2ª maior causa de internação destes pacientes em asilos. A experiência mostrou que 76% dos casos são mulheres, na sua grande maioria acima dos 40 anos de idade.

Cerca de 1/5 das mulheres com mais de 45 anos relata um episódio de incontinência fecal por ano. Em 40% dos casos estima-se um grave impacto sobre a qualidade de vida. Mesmo assim, somente 1/3 das mulheres procura tratamento.

Em cada dez pessoas incontinentes na idade adulta, oito são mulheres e duas são homens. Na idade mais avançada, repito, os dois sexos se equiparam.

Causas

Existem duas formas principais de incontinência fecal:

A primeira é a urgência fecal, onde a pessoa tem o desejo de defecar, mas a incontinência ocorre, apesar dos esforços para reter as fezes.

O segundo é a incontinência passiva, onde a pessoa não tem a consciência da necessidade de evacuar.

Embora existam vários métodos de tratamento, esses métodos se concentram em melhorar a incontinência, em vez de reparar as alterações do canal anal, além de ser trabalhosos, demorados e de alto custo. Para superar essas limitações, é necessário um método de tratamento que também repare as alterações no canal anal sem acarretar custos e encargos indevidos para o paciente.

Radiofrequência no tratamento transmucoso não invasivo da incontinência fecal

Este probe da radiofrequência contém um conjunto de eletrodos acoplados à ponta, configurados para transferir a energia de radiofrequência para o canal anal alcançando uma temperatura específica. É monitorada e regulada pelo gerador de radiofrequência.

Recentemente, o tratamento transmucoso não invasivo da incontinência fecal com a radiofrequência por Probe está sendo considerada uma opção importante no tratamento não invasivo da incontinência fecal.

O probe do ThermiVa apresenta uma ponta curva flexível na forma da letra “S”, o eletrodo colocado em um dos lados permite a energia da radiofrequência atingir uma superfície maior durante o tratamento. O tratamento transmucoso não invasivo alcança temperatura entre 40-45 °C. O monitoramento da temperatura em tempo real é realizado usando um termopar.

A configuração da ponta do probe permite que a radiofrequência seja uniformemente distribuída no canal anal, através de movimentos circulares e uniformes.

O tratamento transmucoso não invasivo da incontinência fecal com a radiofrequência:

  1. Provoca lesões térmicas discretas no canal anal e complexo esfinesteriano, e ao longo de vários meses essas lesões se cicatrizam e contrai o tecido do canal anal, aumenta o tônus e a pressão no canal anal.
  2. Causa vasodilatação e aumento do fluxo sanguíneo, estimulando a formação de um colágeno fortalecido o que reduz a flacidez do canal anal.
  3. Impulsiona a transmissão dos impulsos nervosos, melhorando a sensibilidade anorretal. Essa estimulação fortalece o canal anal, principalmente o esfíncter anal, o que aumenta o tônus do canal anal, melhorando a contratibilidade e a coordenação dos movimentos anorretais.
  4. Melhora a sensibilidade anorretal permitindo que o paciente diferencie a consistência das fezes e os gases, fazendo com que ele faça a adequada contração do esfíncter anal para aumentar a pressão no canal anal de forma mais eficaz.

Técnica

O gerador de RF é formada pela Unidade de Processamento Central (denominada “CPU”), um teclado (integradas ao gerador de RF ou externo), uma tela e um oscilador de RF operado por pedal.

O probe é movimentado lentamente, de dentro para fora, em movimentos circulares, atingindo aproximadamente 3 a 5 centímetros do canal anal. O tratamento começa em 35 graus e pode ser aumentado gradualmente para 40 a 45 graus e mantido nesta temperatura por cerca de três a cinco minutos ou de acordo com a tolerância do paciente. Nas mulheres, realiza-se o tratamento da parede posterior da vagina como reforço.

São realizadas três sessões mensais de tratamento com reforço a cada 6 a 12 meses.

EVIDÊNCIA CIENTÍFICA

O Instituto Nacional de Saúde e Excelência do Reino Unido (NICE) emitiu orientação sobre o tratamento de radiofrequência para a incontinência fecal em 2011. NICE concluiu que “evidências sobre a terapia de radiofrequência do esfíncter anal para a incontinência fecal não levantam grandes preocupações de segurança. Há evidências de eficácia no curto prazo, mas em um número limitado de pacientes”.

Sociedade Americana de Cirurgiões Colon e Rectal. Em 2015, The American Society of Colon and Rectal Surgeons, atualizou sua diretriz para o tratamento da incontinência fecal. A diretriz afirma que “a aplicação radiofrequência controlada por temperatura para o complexo do esfincteriano pode ser usada para tratar a incontinência fecal. Recomendação moderada, 2B. “A diretriz também afirma: devido às limitações nos dados disponíveis, os tratamentos conservadores devem ser realizados antes e durante a aplicação radiofrequência controlada”.

 

CLÍNICA ENDOCOLONO

Protocolo para o tratamento transmucoso não invasivo da incontinência fecal usando a radiofrequência

  • História clínica e exame proctológico objetivos da Incontinência fecal na primeira e subsequentes consultas. Idade, sexo, associação com incontinência urinária, Índice de Continência de Wexner e auto avaliação pelo FIQL – Qualidade de Vida na Incontinência Fecal.
  • Exames complementares: manometria anorretal e exame de imagem do canal anal (ultrassom ou ressonância magnética. Para realizar esse tratamento, é essencial saber se existe lesão do esfíncter  anal e qual a gravidade. O exame proctológico não é confiável para a identificação e graduação de possíveis lesões.
  • Critério de Inclusão: Índice de Incontinência de Wexner menor ou igual a 14 pontos (incontinência fecal leve a moderada) sem lesão grave do complexo esfincteriano.
  • Todos os pacientes assinam o Consentimento Informado para realizar o tratamento.
  • Inicia ou continua com o tratamento clínico:*  Medidas para que a consistência das fezes seja adequada (dieta e medicamentos).
    *  Pratique atividade física. O movimento ajuda seu intestino a funcionar melhor. Caminhada, bicicleta, natação, hidroginástica.
    *  Procure ter hábitos regulares para evacuar. Após o café da manhã e o almoço, seu intestino funciona melhor. Evite reprimir a vontade de evacuar e vá ao banheiro sempre nos mesmos horários.
    *  Para fortalecer os músculos que mantêm o ânus fechado, faça os exercícios específicos.
    *  Se precisar sair e estiver com diarreia ou com muito receio de perder fezes, esvazie o intestino antes de sair de casa e use uma proteção. Neste caso, dê preferência para absorventes e fraldas adequados ao seu tamanho e à quantidade de fezes perdidas. Não permaneça por mais de 4 horas com o mesmo protetor.
    *  Faça o diário de evacuações.

A gravidade da incontinência fecal é determinada pela escala de Wexner e envolve não só as características e frequência das perdas anais, mas também o uso de proteção e as limitações consequentes à incontinência fecal.

Escala de graduação da incontinência de Wexner.

O Questionário FIQL – Qualidade de Vida na Incontinência Fecal é utilizado por se tratar de instrumento específico de linguagem simples, com tempo de aplicação viável e de aceitação na literatura. Produz resultados iguais ou semelhantes, em duas ou mais aplicações no mesmo paciente, desde que seu estado clínico não tenha sido alterado. Desta forma, ao invés de avaliar apenas os parâmetros clínicos e laboratoriais, obtém-se avaliação mais completa do paciente, o que permite melhor planejamento do tratamento e avaliação a longo prazo.

Seguimento

A primeira reconsulta é agendada para 15 dias após o término da última sessão de tratamento com o Thermiva e as posteriores com 30 dias e 6 meses.

Nas reconsultas, os pacientes realizavam a auto avaliação simples: “Você está melhor ou não melhorou?”. São analisadas também as seguintes variáveis: Idade, sexo, melhora da incontinência urinária, auto avaliação pelo FIQL – Qualidade de Vida na Incontinência Fecal e Índice de Continência de Wexner.

O diário de evacuações nas consultas subsequentes é considerado parte importante para o vínculo do paciente ao tratamento.

Resultados alcançado nos trabalhos

Quando o Índice de Continência de Wexner na primeira consulta foi menor ou igual a 14 pontos, no final do tratamento, para os que melhoraram caiu para 2 pontos em média.

Quando o Índice de Continência de Wexner na primeira consulta for maior ou igual a 15 pontos, no final do tratamento, praticamente ficou inalterado.

Portanto, considera-se o Índice de Continência de Wexner na primeira consulta menor ou igual a 14 pontos (incontinência fecal leve a moderada) o critério de inclusão.

Cerca de 60% das pacientes apresentam também incontinência urinária. Esses dados devem alertar os profissionais de saúde para identificar a presença de incontinência anal, na presença de incontinência urinária.

 

As informações contidas neste artigo são apenas para fins educacionais e não devem ser usadas para diagnóstico ou para orientar o tratamento sem o parecer de um profissional de saúde. Qualquer leitor que está preocupado com sua saúde deve entrar em contato com um médico para aconselhamento.
 
Dr. Derival Nelmo Afonso dos Santos – CRMMG 24432
Diretor Técnico
Dr. Cleinis de Alvarenga Mafra Jr. – CRMMG 20787
Diretor Clinico

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